As vezes é só sair. Força a casca, dedilha o cálcio, toca a pele, abre um buraco, sai.
No ar da escapatória há algo de falso, como se aquele ar nunca tivesse sido ar antes. Saiu.
Quando dentro, preso, seu corpo era erguido pelas paredes aconchegantes, como o útero da mãe foi um dia. O dentro era tão apertado que durante sua vida, até a escapatória, não sabia se sabia andar. Seu corpo era mole, seus atos frágeis, talvez nunca tivesse tido um ato. Tudo bem, nunca teve um ato até a escapatória.
Quando saiu teve a ligeira impressão de que iria abraçar o chão, e o fez com maestria. Abraçou e engatinhou até a primeira pessoa, a primeira parede da primeira prisão pós-escapat.
- Poderia me ajudar?
Já seguro na parede da rua, que mal conseguia enxergar , era tanta luz, “meu deus, quanta luz neste universo!”, percebeu outras pessoas vindo em sua direção. Mulheres crianças idosos chefes empregados garis executivos, os executivos são tão bonitos. Teve vontade de ser executivo. Pegou impulso na parede e jogou-se em cima de um.
- Poderia me ajudar?
Já seguro no emprego, sentado numa cadeira de rodinhas – uma boa para uma pessoa tão mole quanto você- olhou uma moça. “Uma moça tão bonita”. Teve vontade de ter a moça. “Quero essa moça!”. Pegou impulso na cadeira e se jogou nela.
- Poderia me ajudar?
E já estável no casamento, deitado na cama cheia de lençóis bregas de cetim, vendo na televisão, estrategicamente pendurada na parede, milhares de crianças órfãs em mais uma guerra na Asia Europa Africa América, teve vontade de ter “um filho”. “Um filho um filho, isso”. Desta vez pega pouco impulso até alcançar o topo do corpo da mulher e.
-Poderia me ajudar?
- Só se me foder!
E foi o que fez, teve um filho. Um não, dois, pois são (eram?) gêmeos. Crianças berram desde o rompimento com o confortável. Expelidos sem pedirem. Para o fora claro e escuro. Dia e noite. Choro choro berros banhos leite fraudas. Todas as atenções para as crianças, nenhuma para você. Seu corpo mole, cadeira e cama macias. Seu corpo tão moldável. Pessoas tão moldes. Na escapatória você se sentiu só. Na escapatória você se sentiu mais preso mais preso mais moldado. E só. Não pode mais se sentir assim, “não posso, por favor, não posso!”.
Onde você está, lembra? Arrastando o corpo até a casca. “Onde deixei a casca?”, procurou a casca onde ela sempre ficou, achou. “Lá está ela!” Do mesmo jeito que havia deixado. O mesmo buraco. “E as crianças?! E as crianças?”, foda com sua vida, entre no buraco! “Vou entrar… eu vou! Vou? Vou!”. Pega impulso, não, não pega impulso nenhum! O contato com a casca por si o impulsiona, você entra, a casca fecha, você nunca mais falou com ninguém ( e me disseram que nunca mais foi visto sozinho).














