Quinta-feira, Janeiro 07, 2010


As vezes é só sair. Força a casca, dedilha o cálcio, toca a pele, abre um buraco, sai.
No ar da escapatória há algo de falso, como se aquele ar nunca tivesse sido ar antes. Saiu.
Quando dentro, preso, seu corpo era erguido pelas paredes aconchegantes, como o útero da mãe foi um dia. O dentro era tão apertado que durante sua vida, até a escapatória, não sabia se sabia andar. Seu corpo era mole, seus atos frágeis, talvez nunca tivesse tido um ato. Tudo bem, nunca teve um ato até a escapatória.
Quando saiu teve a ligeira impressão de que iria abraçar o chão, e o fez com maestria. Abraçou e engatinhou até a primeira pessoa, a primeira parede da primeira prisão pós-escapat.
- Poderia me ajudar?
Já seguro na parede da rua, que mal conseguia enxergar , era tanta luz, “meu deus, quanta luz neste universo!”, percebeu outras pessoas vindo em sua direção. Mulheres crianças idosos chefes empregados garis executivos, os executivos são tão bonitos. Teve vontade de ser executivo. Pegou impulso na parede e jogou-se em cima de um.
- Poderia me ajudar?
Já seguro no emprego, sentado numa cadeira de rodinhas – uma boa para uma pessoa tão mole quanto você- olhou uma moça. “Uma moça tão bonita”. Teve vontade de ter a moça. “Quero essa moça!”. Pegou impulso na cadeira e se jogou nela.
- Poderia me ajudar?
E já estável no casamento, deitado na cama cheia de lençóis bregas de cetim, vendo na televisão, estrategicamente pendurada na parede, milhares de crianças órfãs em mais uma guerra na Asia Europa Africa América, teve vontade de ter “um filho”. “Um filho um filho, isso”.  Desta vez pega pouco impulso até alcançar o topo do corpo da mulher e.
-Poderia me ajudar?
- Só se me foder!
E foi o que fez, teve um filho. Um não, dois, pois são (eram?)  gêmeos. Crianças berram desde o rompimento com o confortável. Expelidos sem pedirem. Para o fora claro e escuro. Dia e noite. Choro choro berros banhos leite fraudas.  Todas as atenções para as crianças, nenhuma para você. Seu corpo mole, cadeira e cama macias. Seu corpo tão moldável. Pessoas tão moldes. Na escapatória você se sentiu só. Na escapatória você se sentiu mais preso mais preso mais moldado. E só. Não pode mais se sentir assim, “não posso, por favor, não posso!”.
Onde você está, lembra?  Arrastando o corpo até a casca. “Onde deixei a casca?”, procurou a casca onde ela sempre ficou, achou. “Lá está ela!” Do mesmo jeito que havia deixado. O mesmo buraco.  “E as crianças?! E as crianças?”, foda com sua vida, entre no buraco! “Vou entrar… eu vou! Vou? Vou!”. Pega impulso, não, não pega impulso nenhum! O contato com a casca por si o impulsiona, você entra, a casca fecha, você nunca mais falou com ninguém ( e me disseram que nunca mais foi visto sozinho).

Segunda-feira, Dezembro 21, 2009






 






Terça-feira, Dezembro 08, 2009

Plano Branco

Em  frente a esta folha grande e branca, o ódio o amor e o medo parecem ser enormes.

Qualquer palavra que mancha o papel, que dilata o estrago, qualquer palavra parece menor do que tudo o que sinto.

Os dedos vão passando leve por entre as correntes de ar, catando as letras que me foram dadas aos seis anos de idade.

Logo cedo me ensinaram que viver era não viver, mas sim desvendar o tesouro escondido nas palavras.
Mas que tesouro é esse que não cabe em baús?
Às vezes a explicação de tudo excede o que domina meus pulmões. E a explicação torna o ar frio e parece machucar. A corrente de ar quente também me causa temor, e me sufoca.

Depois que demos vida às palavras, perdemos a nossa própria. A existência tornou-se curta e eu vejo necessidade de escrever palavras vazias para ver se algum dia me completo, faço sentido.
O problema disso tudo é que o sentido que dou as imagens que criam-se no plano branco de fundo profundo, não vale de nada no mundo feito de remédios em que vivo...

Segunda-feira, Dezembro 07, 2009

O ab(surdo) não (h)ouve *



Entra nos lugares, pede para sentar, levanta.  Anda. Sai.  As pessoas passam e suas carnes moles, suores.  Você sente que seu corpo está cada vez mais seco e limpo.  Seco limpo e sem brilho.
Atravessa a rua, sob o sol sal e desgosto e continua em linha reta.  De certa forma é o absurdo que nos cabe. Continuar.  Continuar , senta, levanta, late.
Não faz sentido moer a carne no asfalto, se jogar em frente ao carro. Nenhum sentido parar o taxi em meio ao engarrafamento, subir no parapeito da ponte e saltar aberto para o conforto do fim.  Nem a espera do toque áspero  da mão áspera de um futuro inexistente.
Não há busca de sentido no calor de um estofado.
Por isso, pela falta de sentido e vontade de absurdo, continuo (amos) em estado apático frente ao caos das seis da tarde (noite)

Terça-feira, Novembro 24, 2009

um dia a mais, um corpo a menos.

São duas horas da manhã, e o que posso fazer da minha vida?

O dia longo, o dia quente, as pessoas passando depressa, os olhos fechando lentamente e na cabeça, martelando, diversar direções agudas.

Toma banho. Toma banho de mar. Toma rumo. O cumulo quando não se tem mais lugar. Ver mundo, ver pessoas, gostar, desgostar. Vê-las indo embora, outras tentando entrar forçando a porta.

Rimei o coração na vitrine e as lágrimas secaram com o vento de realidade que bateu em minhas janelas. Duas janelas abertas.

Terça-feira, Novembro 10, 2009

Escureceu

os dedos, o pé, no chão frio. medrosos. sentem escuridão em cada passo. as mãos na parede tateam o caminho. difícil.
chegamos até a sala. janelas escancaradas. vento bom. barulho do não-elétrico nas ruas.
gritos
fárois
alarmes
pessoas têm medo do não-imagético. bem-vindo seja o que toca e o que pode querer tocar. o silêncio tem ruído de ratos. os ratos têm ruídos de medo. o medo tem o som de todo mundo.
debruço os braços sobre a janela e erguendo a cabeça vejo que ainda há estrelas no céu. não aviões. não luzes de postes. não casa iluminada. estrelas. brilham tanto que derretem, viram lágrimas. emociono.
a luz do celular acabou. a bateria acabou. viro-me e contemplo, por dois segundos, até o próximo farol do próximo ônibus iluminar a sala, a casa vazia. vazia de sombras e aspectos. vazia no que mes olhos não podem mais tocar. tremo. mais um farol. estou a salva.
seria bom se eu tivesse uma vela.
seria muito bom se eu estivesse com sono. entregaria-me a minha própria escuridão.. opa. um faísco ali fora. opa. um faísco aqui dentro também. opa, a luz voltou. e só agora vejo que na rua havia,o tempo todo, um menino sentado, amarelo, segurando uma gaiola com um passarinho.

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Pressa de vida

Apertou uma bola presa na garganta e tentou engolir
e engolindo sentiu amarga
a boca
o corpo
a língua

era veneno
era veneno- ela pensou

sentiu seu corpo paralisado
o rosto endurecido
a palma da mão esticada
os olhos arregalados

a bola finge que desce e sobe
e sobe forte
os dedos tentam segurá-la em vão

H
HH
HHH
HHHH
HHHHH
HHHHHH
HHHHHHH
HHHHHHHH
HHHHHHHHA!

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

Fluxo de bolhas de sabão

Agachou como se fosse pegar algo pequeno e frágil. Agachou fundo. Baixo. Agachou deitando o corpo. E quando tudo já lhe tocava , chorou. Chorou litros, rios, mares e marés . Chorou soluços, vidas passadas, chorou um batalhão inteiro de jovens mortos. Uma guerra no chão. Seu corpo molhado. E tudo sem odor. Chorava. E não lhe bastavam as lágrimas, não lhe bastava o sal que o sol dos dias lhe trazia. Chorava e caia tanta água. E era tanto fluxo de vida desperdiçada.
Pling
Pling
Pling
Levantou. Abriu os olhos. A luz. Abriu as mãos. Pegou o sabonete. Pegou o shampoo. Abriu as mãos e lavou-se toda. Abriu mão do próprio sofrimento e chorou. Porque não sofrer dói demais.

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Ego-desinflando

Amei
quando olhei e não vi meus cabelos
quando amei
tocando na pele rubra
que não era mais a minha.

Amei
quando todas as pessoas
viam que a boca que eu
beijava
não era mais a boca que eu
procurava desesperadamente no
espelho.

Amei
quando aprendi a deixar
seu corpo
não ser mais o meu.

Quinta-feira, Outubro 08, 2009

Cortina

Seu corpo.
raios
de
formas
de
calores
que
deformam.

Sentido
de
luz no braço
branco.

Seu corpo.
nu
no meu colo
brando.


Meu corpo.
cortina
que
lhe esconde
do mundo
que
apavora
à tantos

adorno
para
sua eletricidade

Meu corpo
tecidos
que
lhe beijam
os ressabiamentos.

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

Amar ao próximo

Coma-te
a
ti mesmo!

Quarta-feira, Setembro 16, 2009

Rima pobre

Podemos mascarar o dia com cafés, aromas doces de perfumes artificiais, banhos. Tiramos do guarda-roupa o melhor traje. Personificamos.
Tentamos um lance novo, a contra-gosto.
Falamos.
Falamos.
Falamos.
E antes que comecemos a ser, desconfiamos.
Percebemos os tratos, surtamos.
Andamos.
Andamos.
Andamos.
E depois que tudo começa a fazer sentido, amamos.
E se tudo parasse de rimar, o que faria eu você e o resto?
- Descodificamos?!

Quinta-feira, Setembro 10, 2009

Scarlet

Ela entra no quarto vazio. Vazio e cheio de cartazes e fotos de artistas. Vazio e cheio de roupas pelo chão. Vazio e cheio de sí.

Senta na cama e pensa que poderia ter trabalhado menos. Que as dores nas pernas diziam que era hora de parar. Sentia dores tão profundas na vagina que pensava em arrancá-la, mas se o fizesse quem pagaria suas contas?

Seu corpo doia numa dor de fogo. Queimada. Para sempre cicatrizes. Seu corpo, dor de suor de outros corpos. De tantos vazios, de uma necessidade de vida. E de instantânea morte. Seu corpo, local de mais ninguém.

Vontade que a descubram. Vontade que a levem. Leve. Que a matem. Que morra. Ela só queria parar de trabalhar tanto. Sentir tanto prazer vazio corrói. A roupa, a calcinha, os pêlos que ralos encobrem seu corpo nu.

Acendia o cigarro. Apagava a luz. Acendia, tinha medo. Seu corpo e escuridão eram tão vastos que podiam se perder entre si. Corpo-escuridão. Corpo, única coisa que tinha. E não tinha. O ânus doia. Chorava, não a vergonha, mas a dor de se sentir ridícula por ter esquecido de comprar a pomada.

Quarta-feira, Julho 08, 2009

Thalita

Dor na garganta,
cospe!
Cospe fora o nó
do novo
cospe fora

não dói.
Vai!
Cospe e sai sorrindo
porque dor de guardar
não é bom.
Cospe a atmosfera sombria
do que não se diz.
VAMOS, cospe!
e se não,
cuspa
pelos olhos
e cai...

Terça-feira, Junho 30, 2009

(não) Realismo (fantástico)

- A noite tive um sonho. Sonhei que meu corpo era todo feito de película fotográfica branca e luminosa. Eu andava pelas ruas semi-escuras de um centro de uma cidade em que nunca estive. A cada passo que eu dava, uma não-vontade de dá-lo ao espaço.
Pensava: mas porque estou andando?
De repente pessoas vinham em minha direção, de repente elas me tocavam ( eu assustada) e no mesmo repente eram sugadas para dentro da minha pele.
Viravam fotografias.
Algumas paralisavam-se sorrindo, em mim. Outras paralisavam-se gritando. Outras, sérias. No fim das contas meu corpo era um porta-retrato, de vários rostos, ambulante.
Me lembro nitidamente da expressão de medo de um homem no meu ombro... acordei angustiada. O que você acha, cara?

- Acho que você precisa fazer mais sexo e virar de carne (muita carne) e osso.

fim de choro

Quarta-feira, Junho 17, 2009

Menino poeta

O corpo do menino fazia-se confortável no colo da mãe. A ponta dos dedos acariciavam suavemente o pêlo da pele do braço que o segurava. A tarde pintando suas cores alaranjadas no céu. Muitas janelas abertas no ônibus que um dia foi amarelo. Ventos e cabelos no rosto. Agora é a hora da ponte. O vento aumenta. Olhei para o lado e vi novamente o menino. Quanta alegria naquele pequeno ao ver o sol nadando em pequenas partículas brilhosas na água clara.

- Mãe, o mar é feito de estrelas derretidas?

A mãe não responde. Ela nem estava ali. Meu coração dispara. E eu começo a ver milhares de estrelas brilhando no raios que o sol deixa refletir na água.

Tratato

Domingo, Maio 31, 2009

Vi (ver)

Meus olhos míopes
espremidos
enxergam os ciclos dos
vádios;
as cores dos banidos;
as falas dos lendários;
as poses dos canalhas.
Enxergam o mundo,
mas me tremem as imagens.

(Quanto à mim...)

Me vejo entrelinhas no
meio de multidões
pareço sopro no que
me dizem vida.
Sou suspiro entre
sorrisos alheios.

Sábado, Maio 09, 2009

Amar é.

Quarta-feira, Maio 06, 2009


A
paz
ión
nada.

Terça-feira, Abril 21, 2009

Existência alcólica

Quinta-feira, Abril 16, 2009

Punheta

Escuta o som
que sai dos meus quadris
e desliza
pelas folhas que escondem
teu corpo.
Encoste seus dedos em mim
e sinta a umidade
do calor que você me
causa.
Se eu fosse tua,
não parava e
sugaria até sua última
gota.
Mas e se sou e não sei?
E a noite, inocente,
me entrego para você,
em folhagens,
no
obscuro do banheiro?

Quarta-feira, Abril 15, 2009

Fome de emoções

Quinta-feira, Abril 09, 2009

Muito além do que se vê.

Tudo nela reluzia (até os cantos). De relance até parecia um pedaço de sol. De arder os olhos. mas ela não era quente e tinha os lábios roxos e tristes.
Tinha duas amigas muito parecidas. Porém com menos roxos. Isso fazia com que ela ganhasse duas novas esquinas ensolaradas em seu caminho.

Todo dia eu sento quase no mesmo horário, tudo depende do meu chefe e do andamento da obra, numa armação de concreto que fica em frente a faculdade dessa garota. E de suas amigas. Acho que ninguém ali me vê não. Mas também não faço muita questão, solidão é abrigo para um homem cada vez mais doente de cimento.
Cimento e silêncio.
Minha vida e minha morte, e ela, o que era?
Um pedaço de sol refratado na minha pele cascuda.

Nada mais que isso, e se fosse talvez eu enjoaria de tanto toque doce e de tanto não a toque. Flores veludas, cabos de enxada, xapisco grosso, fino, peneira, menina branca.
Minha cama é de chão socado e um lençol. Quantas vezes eu a vi me olhar a noite, eu todo torto enrolado com minha camisa do bota fogo. Envergonhado com a miragem a mirar-me, fechava os olhos tão apertados que a única coisa que passava a ver era uma escuridão cada vez mais vermelha.
Vermelho o cabelo, o rosto no sorriso, a minha taradisse da hora do almoço.

Sábado, Abril 04, 2009

Conselho Drummondiano.

Carlos me disse para esperar. Disse que é assim mesmo, um dia beija, outro dia não, amanhã é segunda.A semana anda derramando cor branca, eu observo sem reação minha pele trigo. Vento, tira este pó de mim?
Acorda, levanta, mexe o braço pra cá, acorda, seca, levanta e olha e não vê e senta e levanta e senta e diz e ouvi e olha, não sente e vira.

- Sossegue! - diz Carlos.

Dois livros, uma xícara de café. Sol das quatro da tarde. Olhos marejados e secos. Alguns entenderão a contradição. E quem não, felicidades! Café, um amigo. Cigarro, um abraço. Levanta e senta e senta e senta.
Do futuro sobrou apenas as pernas finas da esperança. Eu matei sem querer. Matei enquanto voava pela minha cabeça.Vinte anos passam rápido.Bodas de porcelana, boneca solitária. Quem quer comemorar comigo?

- Não se mate, oh não se mate! – Pede Carlos.

Gosto da vida, de respirar e ver brilho de líquido inocente nos olhos dos pequenos. De sentar na grama, deitar... Gosto de ver a pele curada pela luz da estrela maior. De ver os fios sendo empurrados pelo vento para o meu rosto. Gosto das mãos quentes e de segurá-las. De ouvir as ondas bem pertinho do meu ouvido, de mergulhar... Viver é magnífico!

- Entretanto você caminha melancólica e vertical. – Diz Carlos.

Sou sozinha, estar já não existe para mim. Dividir, multiplicar. Não somo. Sumo. Sou 1-1. Um sinal e tudo. Tenho receio de me acabar em dois. Preguiça de dar continuidade, ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Rimbaud.
E eu amo, e muito. Amo tanto que me esqueço. Mas não sabem, nem querem saber. Quem quer descobrir o outro?

- O amor no escuro, não, no claro, é sempre triste, minha filha, mas não diga nada a ninguém, ninguém sabe nem saberá! – Profetiza Carlos.

Sábado, Janeiro 17, 2009

Meu cotidiano.



Passo o tempo observando o movimento dos tecidos leves que estão no varal.
Cores e contrastes fortes,
cheiros doces,
ondulações cheias de si.
Cada estalo de lençol no ar me arde o corpo. Tenho uma ligação muito forte com as coisas no/do mundo. Como se eu fizesse de tudo uma extensão do eu.
Do eu meu.
Um simples contato com meus dedos e tudo retorna ao seu lugar, dentro de mim.
Necessito pôr ar nas narinas do impossível desde criança. Seguro demais no que se esvai em fumaça. E acredito bastante em tudo que seguro e sinto.

Tenho porquinhos de pelúcia que me chamam de mãe, tenho sapatos de rostos felizes, uma cabideira reclamona, cortinas que dançam sensualmente para mim e às vezes para o quarto vazio. Tenho uma cama meio dura e dois travesseiros que sabem tudo de mim, um edredom que me cobre como mãe e mesmo assim, ninguém por perto.

Terça-feira, Dezembro 23, 2008

Fumaça

Quinta-feira, Novembro 13, 2008

Vem


Meus seios
ansiosos
trêmulos
esperam suas mãos
de toques doces e
de língua quente.

As auréolas balbuciam
teu nome de poucas
letras,
invadem tua boca
na calada,
que te cala,
te fazem beijar
minha vida e
te embebedam
de mim,
Penso.

Posso ter veneno,
ser cura...
Mas nunca saberá
se não me devorar.

Quinta-feira, Outubro 23, 2008

Ele tântrico

(Estou postando esta poesia em caráter de experimentação)


O tempo escorregando
pelos
meus quadris
num tic- tac que até me causam
dores.
Você diz que ainda
é cedo demais..
As gotas
as horas
as sombras
Quem sabe mais,
quem diz
ou quem acaba?
Ser e tê-lo
confundem nessa carne.
O jato.

Domingo, Outubro 05, 2008

Estava eu aqui em casa vendo os papéis antigos, desenhos, diários ...
e achei isso:
data: 04/06/2004

Já foi o que sempre será?

Quando voltares para teu amor,
quando a figura esguia dos meus sonhos
ultrapassar a janela do meu corpo e aparecer
materializada num pedaço de papel retorcido no chão;
quando eu sentir, de novo, a brasa seca dos teus olhos;
em meu rosto tua mão nervosa
a irradiar a vibração confusa do teu ser...
eu te direi, se conseguir falar, que foi muito...
o sol ter nascido estrela;
as flores terem desabrochado para dentro;
as crianças terem ganho asas multicoloridas;
o mundo, por um só minut, ter virado um fantástico
e eu não ter me preocupado com as dores dele...
Ah! Vamos parar com o melodrama.
-------------------------------

( e pensar que isso nunca passa)

Quarta-feira, Setembro 24, 2008

Um dia

Todos os dias, menos nas terças, pontualmente as quatro e meia eu passo pela cantina do cinema da universidade. Faço isso tem umas duas semanas. Nunca é tarde para criar uma tradição, mesmo que pessoal.
Pego a ficha do meu café e um cigarro. É sempre o mesmo moço que me atende, normalmente ele me recebe sorrindo, não para mim, mas de mim, que sempre estou com um bilhão de livros na mão e para não variar me embaralho toda ao tentar conciliar o cigarro o café e os benditos, ele sabe que meu café é para viagem e nem me pergunta mais se quero o copo de plástico. Desta vez, no caso hoje, eu estava tão entretida com meus pensamentos que nem olhei para ele, de cabeça baixa mesmo peguei o copo morno, mas para meu espanto ele segurou minha mão, e então levantando a cabeça eu o vi dizer: - Tudo bem com você moça?
E para o meu terror eu me vi dizendo tudo o que me anda passando ultimamente: as duvidas, as certezas, as grandes faltas. Com a mão no copo morno e com o olhar para os olhos negros me vi chorar sem vergonha alguma das lágrimas públicas. Mas no segundo seguinte a este pensamento eu sorri e disse: - Tudo, e fui embora pensando quão bom teria sido se eu tivesse dividido minha vida com um estranho.

Quinta-feira, Setembro 11, 2008

509

Quarta-feira, Setembro 10, 2008


Minha mão abre e fecha abre e fecha
(e tum tum)
imitando o movimento do coração.
Fechada, entendo uma pedra.
Aberta, percebo o vazio.
No seu abrir fechar tensionados,
prende e expulsa o meu ar.
O ar do meu impossível.

Quinta-feira, Agosto 21, 2008


O corpinho frágil correndo em círculos.Desespero era codinome de quem tem a insônia como melhor amiga há anos.
Uma xícara de chá frio enfeitando o lugar da sobremesa numa mesa posta para dois. Numa mesa posta entre as moscas, numa mesa morta.
- Ele não veio, ele não vem e nunca virá.
Ela diz num tom linear, no mesmo tom que é inerente à uma afirmativa murcha. A espera já não é algo que lhe palpita. Assim como já não lhe tremem a carne, as cores do mundo.
Bêbada de horas e sóbria de vida.
Ela sabia que a culpa era da repressão de si sobre os fatos e a dos atos para com os elos, mas no final das contas ela sabia que isso tudo era a mesma coisa e quem sentia culpa era.
Correndo, sôfrega, tonta e torta. Por entre os ventos dos vultos de si, vê o espelho a refletir os seus espaços, os vãos e os olhos murchos. Mas nada mais lhe intriga, se ela parar ela pensa, se continuar... ela desacelera e amolecendo-se , senta. E sentando não sente mais nada. Sorri, involuntariamente. E deita no chão. E dorme.

Sábado, Maio 03, 2008

Lá no fim


Quarta-feira, Abril 30, 2008

Samba

.

Segunda-feira, Abril 21, 2008

.

Uma e meia da manhã e não se sabe o que fazer com as mãos. Coloca nos cabelos, no rosto, no rosto, nos lábios, nos lábios, nos dentes, na língua. Línguas.
As pontas dos dedos confusas de suor. O cerebro sorrindo emoções carnais. O coração pulsando pela garganta. O sangue escoando sonoramente pelas veias, que por sua vez, pela primeira vez, se mostram belas.
Na ponta dos dedos a língua, que passa novamente pelo umbigo, pela falta de pêlos, no exesso de gosto, nas dobras, nas coxas, nas coxas, dentes, marcas. Eu gosto deste rapaz!

- Bela!

O sorriso abre-se naturalmente, assim como as pernas, os braços. Tudo lateja em mim. A vida por alguns segundos brinca de pulsar.
Os olhos dele são os mesmos. O sorriso de lábios, a barba, o óculos. Aperta minha mão fortemente e a gente brinca , sem querer,de cena de filme ao olhar os dois juntos para o teto.
Eu só queria uma paixão, um flerte, um caso e me reaparece o amor.

Sábado, Abril 12, 2008

Terceira guerra

Seu exercito, lábios e olhos.
Olhar com gosto de pólvora.
Minha tropa desarmada,
Não-amada,
Tiros na minha cabeça.
Minhas mãos tremem, não consigo
Atirar.
A caneta bic suada.
Meu rosto, vermelho sangue...
Olho para a trincheira e
Vejo
Que todos os meus homens
Estão morrendo...
Minha blusa lilás devagarmente torna-se vermelha...
As vezes o sorriso acende em meus lábios
Por saber que pela
Primeira vez irei experimentar
Um novo gosto, um novo tratado
O gosto silencioso da derrota.
Você? Você venceu!
Para mim: game over.
Ergo a bandeira branca.
Vem!

Terça-feira, Março 11, 2008

Oferenda à Iemanjá.


Falta de ar.
Falta de ar. Falta de ar.
Você por um instante se sente
abandonada por si
Um milhão de imagens
correndo um pequeno campo de massa
cinzenta.
Vozes te puxam
para dentro.
Você quer ser livre. Falta de ar.
Você sempre quis saber
como era a agônia de
ter voz e não poder gritar,
assim como nos seus sonhos.
E vozes gritam frases clichês
que você assimilou por osmose,
da sua criação ocidental.
Falta de ar, bolhas, bolhas, bolhas
Você está longe da luz.
Na luz
poucos a possuem.
Você sempre preferiu a escuridão.
Luz.
Tudo tremido.
Seu pai sempre falou que você
ficava linda de óculos
bolhas bolhas bolhas bolhas bolhas
Você pensou na sua feliz
e ficou morte...

Domingo, Março 09, 2008

Livro usado


Foi muito difícil ver
partir
o pequeno calor que
eu tinha.
O vermelho de todo o
meu corpo
virando amarelado de folhas
envelhecidas.
De repente, não mais que,
eu me vejo
esquecida na prateleira das
alucinações.
Uma grande
falta de vontade de ser
vista e lida por outros.
As traças viraram companheiras
sentem prazer em me ver
cumprimentam, sorriem
e comigo transam.
Triste, espero as mãos brancas,
com punhos bonitos,
tocarem novamente em
minha capa roida.
Quem sabe dessa vez ele não
esquece as novidades e
me leva consigo?

Sexta-feira, Outubro 26, 2007

Desperto

Abatida , escova os dentes. A imagem no espelho é apenas a casca podre de uma maça madura. Ela não se olha , permite-se apenas sentir. A pasta na escova, a escova na água, a escova nos dentes. Maquinal. Os dentes na água, a escova na escova, a pasta na água. Desorienta-se.

Não sabe o que fazer do seu dia de folga. Abre a janela e todo o azul do céu atordoa seus olhos. Estende os braços para que o olhar perceba-o e pensa: "como estou amarela!". Movimenta-se devagar, quase arrastando. Vê a bicicleta vermelha e automaticamente as pernas flácidas.

Sente o cheiro da cama. Já deitada vê a pilha de livros que se vê obrigada a ler. Levanta, num giro com os últimos esforços de sua quase energia . Olha as louças na pia e sente um arrepio. Vê o sofá. Deita no chão. O estômago grita e faz eco no vazio de seu corpo.

Pensa que o barulho do ventilador poderia ser menos violento. Que a porta do anheiro deveria ser trocada com urgência pois estava cheia de pragas. Que "falando em banheiro, preciso de um banho...". Não levanta. Não verá ninguém hoje, pensa. Assoa o nariz. Resmunga a falta de saúde. Sente vontade de andar de bicicleta mas os joelhos parecem doer mais do que de costume. "Não posso me cansar hoje". O cachorro morreu há três dias. Vira -lata temperamental que fazia aguçar suas alegrias, que ouvia de orelhas em pé suas discussões pseudo-filosóficas sobre a nova secretária do chefe. Que assistia filmes e ouvia música junto à ela. Feliz a espiava fazer sexo com aquele moço da barba bonita. Na hora do gozo, latia. Eram três. Morreu. Como tudo o que contém fucinho. E o dele era gelado.

Ela continua deitada pensando no que havia planejado no dia anterior, para o seu grande dia de folga. "Meu primeiro dia de folga sem o Ringo". Ringo o cachorro, não o Starr. " Eu tinha que ir aonde mesmo hoje?". Tinha planejado o supermercado pela manhã, faltavam alimentos nos ármarios há uma semana. Nunca faltava ração. E no carrinho de compras, com certeza, teria a preferida do Ringo. Mesmo a casa cheirando a velório canino. Que Deus o tenha. " Que deus o tenha!", disse ela várias vezes com ar inocente/ infantil de quem acredita que cachorro possue alma.

Desesperada tentaria ler os livros. Leria a introdução. A contra - capa. Ficaria frustrada. Tomaria um capuccino as três, vendo os olhos grandes das crianças que estariam de trás da gradezinha do apartamento da frente. Teria vontade de ter um filho. Pegaria um ônibus, visitaria a mãe que há muitos andava suspirando visitas telefone a fora.

Depois, tenho certeza, passaria num canil. Teria vontade de ter um filho. Fumaria um cigarro salgado de lágrimas, limparia toda a nicotina no pulmão que por sua vez estaria deitado num amontoado de ácaros chamado sangue. Sentaria para beber. O garçom faria compania e pagaria a conta. Teria vontade de ter um filho. O cachorro morreu há três dias ...

_ TRIIIIIIIIMMMMMMMM! TRIIIIIIMMMMM! A hora do trabalho; lembrou o despertador.

Quinta-feira, Outubro 18, 2007

Distração


Livro, que juntamente com Asfalto Selvagem ( Engraçadinha...) de Nelson Rodrigues, vai virar fonte de pesquisa para minha monografia.

Terça-feira, Outubro 09, 2007

Sugestões*


Com o exesso da minha
felicidade
fiz um cinzeiro.
Sei que vai servir
para bater as cinzas
do que sobrar desta
festa toda.
Mais de uma semana
sorrindo dá cáries.
Mas nunca nenhum dentista
disse isso para mim.
Sorrio com os dentes podres mesmo,
porque sei que mesmo com
esse sorriso feio
consigo amigos que me
querem por perto pelo que
passo e não pelo que sou.
Se fosse o contrário faria
uma bolha no lugar
do cinzeiro.

(na foto: Gabriela Krüguer)

Terça-feira, Outubro 02, 2007

SER

Sozinha assim pareço até ser
deus.
Posso fundamentos
Imponho força
Priorizo vontades
desenho perspectivas
num céu que é só meu.
Num tudo que é só pronome possessivo
Canso.
Deito nas regras que
formulei.
Penso.
Relaxo e
determino.
Ma determinar o que a quem?
Repenso...
Não possuo anjos,
nem fieis,
nenhum santo para eu
repartir meu ego.
Todo o poder
e eu
enclausurada nas
quatro paredes frias
dessa vida
chamada vacuo.
Nenhum filho à direita
nenhuma pomba à esquerda.
Eu,
o trono e
o poder vazio.

Quarta-feira, Setembro 05, 2007

Craintif

.

Segunda-feira, Maio 07, 2007

Um dia entediante assim como todos os outros passantes.Uma lagrimazinha no canto do olho direito. Uma bocejada longa com um engasgo no final. Caneca de café. Ringo Star na vitrola.

- Que merda! Minha família vem hoje!

A meia do meu pé se embaraçando no pêlo do meu cachorro.

- Essa música é engraçada.

Levanto e a calça do meu pijama velho de listras azuis com elástico bem usado cai deixando mostrar minha calcinha rosa . Vou arrastando meus chinelinhos de vovó, que eu ganhei da minha no meu aniversário, pego outro copo de café. Penso que odeio café e já é o terceiro copo de vidro grande que eu tomo.

- Ainda bem que eu parei de fumar...

A vontade única era ficar parada. Um suspiro. Meu cachorro late. Um latido que diz: Vai me deixar preso aqui nesse muquifo ou vou ter que morder seu chinelo?

- Que foi? Heim? Inferno! Te dou água, comida e ainda carinho com a minha meia que depois fica cheia de pêlos e a única coisa que lhe peço é o seu silêncio! Não é possível!

Briguei com meu cachorro, meu único companheiro. Ele colocou o rabo entre as pernas e foi para debaixo da cama. Ele me entende. E eu briguei com ele. E estou com tédio. E não escovei os dentes. E eu quero ficar quieta . Quieta. E lágrimas caem dos meus olhos .Eu não consigo manter ninguém do meu lado por muito tempo, e se meu cachorro tivesse asas já teria voado pela janela do meu apartamento. E se eu tivesse falado para ele que eu era fria e seca, mas que eu gostava dele, não teria sobrado somente o cachorro. Eu vou tomar um banho agora, vou vencer meu orgulho, pedir perdão para o meu cachorro e dar uma volta no parque com ele.

Thalita Covre

Terça-feira, Março 20, 2007

O ato do fato

Saio de casa. Passo por um caminho tão linear, por um trecho tão retilíneo de uma vida tão branca. Espero um ônibus que chamo de carruagem. A meia-noite tenho que estar de volta se não a carruagem vira abóbora e eu volto com os ratos.
O motorista é gordo e rosa, vejo um porco. O cara que está sentado do meu lado procura com o olhar algo entre os meus seios. Talvez as minhas auréolas, que brilham um soco dourado no rosto dele.
Desço conformada com a minha falta de destino. Com minha falta de sorte. Com minha grande falta.
Estou com o arco do violino numa mão, que ultimamente anda servindo para tanta coisa, e com o violino na outra.
Na bolsa um litro de vinho vagabundo. Na minha frente “n” possibilidades de solidões. Areia, banco e vento. Toco uma música que ainda não está catálogada na prateleira de discos. Uma melodia sem harmonia, que possui apenas um ritmo frenético pois a pessoa que toca acredita ser uma violinista. Fecha os olhos e me vejo numa orquestra, muitas pessoas me observam atentas. Porém na vida fora de minhas pálpebras cerradas apenas o banco o vento e a areia saudam-me silenciosamente.
Tiro um copo, ponho o vinho.
Bebo. Quero uma companhia...
Quero o príncipe.
Quero o sapo.
Mas ali está o arco.
Quero um camarada.
Uma voz.
Uma respiração.
Um atalho.
E lá está o arco.
Eu arco esperando meu violino(que venha a música).
Respiro minha falta de solução. Sozinha sou apenas mais um pedaço de madeira rígida, com crina, que serve apenas para afastar mosquitos, para tomar lugar de régua, e virar objeto de prazer para moças moralistas histéricas.

Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007

seule et dans l'obscurité


Um homem assoviando. Várias crianças. Eu ouço os gritos. Cachorros latem. Meus olhos são duas lanterninhas sem pilhas . Passo batida. A rua para mim não é passarela. Destruo toda a sorte de possibilidades de uma bela morte. Ando na calçada. Entre um corpo e outro sinto o meu, cada vez mais magro e sem jeito.

Olho sempre para os meus pés. Tenho medo de tropeçar em mim enquanto ando.
Nessa escuridão tão decorosa, e tão pessoal, sinto calor de vela. É você. Eu sinto. Seus olhinhos que são duas lampadazinhas tão fluorecentes. Você quer que eu segure a vela e a carregue comigo para onde eu for. Mas vê se pode, não sou beata, muito menos santa.

As ruas são todas iguais quando estamos de porre. Mas eu não posso beber. Tenho problemas muito sérios no figado. Por isso acabo me perdendo nessas ruelas, becos, avenidas...
O carro passa VRUMMM. É, eu devo ter polido a porta de um deles com a minha calça. Ando no meio da rua. Onde os carros correm, onde as pessoas correm ... onde. Eu não sei. Ninguém sabe. Para onde você vai? Ao supermercado. Qual seu destino?! O supermercado!!
Eu disse para você que eu não quero porra de vela nenhuma! Queima a mão, derrete e acaba! Eu não quero meia luz! Ou me dê sua luz inteira, ou me deixe no escuro!

Domingo, Janeiro 21, 2007

sem nome

A flor morta na minha orelha
dando falsa alegria e serenidade
ao rosto.
O sorriso nos teus lábios refletindo
meu olhar seco.
As estações na árvore...
recortando o tempo
emendando no espaço
Recriando giros.
Modificando faltas.
Presenciando as ausências
magnificas dos amores.

Segunda-feira, Janeiro 15, 2007

abstnência

"Pinguinha"
debruçado no balcão
vejo
somente o meu
copo vazio
o meu
corpo vazio.
A vida anda sem graça
e tão circular.
Sem dinheiro para possuí-la
ando de porta em porta,
de boteco em boteco, a pedir-te
a implorar-te...
Vomitar já considero um privilégio .
Antes era a abundância...
a espuma escorrendo pelo copo,
os sorrisos
as gargalhadas
as loucuras
as longas noites.
Antes era eu e você, juntos, no
mesmo copo
Agora sou eu nesse mesmo
corpo maldito,
onde o tempo não passa
onde não há vibração
nem senso,
nem carga.
Ando horas, dias e anos
dentro de um ônibus velho,
vazio
e sem motorista
e não há destino e muito menos combustivel,
biritinha, não há!
Venha , traga-me tua presença,
aceite minha flores e
diga que me quer!
Pois só teu gosto bom, teu abraço quente,
tua presença me traria de volta o
vermelho dos lábios,
o calor da língua,
as sensações sem culpa...
os tatos diferenciados...
Só por hoje
minha menina sensual,
rainha do meu castelo desabado...
Ah!Diga que é minha...
Pois eu, eu querida, serei teu

para sempre.

Quinta-feira, Dezembro 14, 2006

*sem titulo por enquanto

O passa tempo preferido dela era ficar debruçada na janela. Em todas. Ora nas da sua casa, ora nas da minha. Era só haver a janela e essa estar aberta. Eu não gostava de vê-la. Ela era tão esquisita...Sempre rodeada de pessoas e mesmo assim eu a via consideravelmente distante daquele mundo.
Eu odiava vê-la. Vinha com aquela chatisse de andar curvado, sem muito balanço, desengonçado. Olhava sempre para baixo. Sabia o seu caminho de cor.
Nunca conheci seus amigos, familiares, conhecidos... Ela andava sozinha. Era ela e ela. Mas as pessoas a rodeavam. E ela me rodeava.
Não tinha paciência alguma com aquela mulher. Percebi , porém, que não era necessário ter.

Certa vez tive o desprazer de encontrá-la no mesmo ônibus que eu havia pego. E incrívelmente só havia lugar para sentar ao seu lado. Decidi ficar em pé. Pois ela não puxou meu casaco, olhou para mim, olhou para o espaço e sorriu. ! Até hoje não sei porque raios sentei.

- Tem medo de mim?

Eu tinha o que por ela? Nada. Não,nada não! Ou nada sim? Talvez ela fosse exatamente o meu nada. Mas não sei, nem soube responder o que. A imagem era extremamente caótica, virtual e verdadeira.
Por que ela falava comigo? O que eu fiz para ela?

-Você já se sentiu vazio?

E ela perguntava e virava o rosto para a janela do ônibus. E o olhar incluia a ele todo o ambiente que ia correndo lá fora, e sugava o verde, o azul,, o vermelho, o amarelo, o branco-nuvem. Era incrível, nunca havia falado comigo e de primeria toca no meu ponto chave, no meu assunto recorrente.

- O que é o vazio? - Pergunto.

E todos olham. Ela abriu a pasta, pegou uma folha em branco e me disse que a folha em branco simbolisava o nada, pois desenhou uma garota no centro e disse que aquilo era o vazio e que era ela no desenho.
"Eu tenho medo de você!", eu queria dizer , gritar.... mas só conseguia ver a menina do desenho, era tão abstrata e tão real. O cabelo dela era cheiroso e tinha cachos bonitos. Ela não era feia, somente estranha. Gesticulava pouco, tinha os braços magros e amarelos. Porque tão triste?

Depois daquele dia fiquei muito tempo sem a ver. Eu tinha arrumado minha vida, não cheirava mais a alcóol, estava superficialmente feliz, trabalhava muito e de vez em quando estudava as matérias do meu curso rídiculo na faculdade. Não sei se por falta de tempo mas não a via mais nos corredores , nem mais na cantina, nem nos bares, nem cinemas, ônibus, teatros, nem em lugar nenhum. Pensei em perguntar a algum conhecido dela sobre seu aparente desaparecimento, mas perguntar a quem? E porque? Eu não era muito chegado a ela e a presença dessa criatura me incomodava.
Já tinha feito um ano. E a ausência dela me incomodava. E numa quinta-feira, em algum dia de algum mês de algum ano muito apressado, ela aparece. E meus olhos que vidrados olhavam o vazio, paralizam nela, que andando trazia consigo o vento e os passáros e as pessoas e o verde da grama, o azul do céu, o vermelho do meu sangue e os batimentos...O cheiro que vinha trazido pelo vento, dos seus cabelos, descongestiona o meu peito, que volta a respirar ofegante...E então o sol, que descobri ser a tão temida morte, com foice , capa e tudo que se tem direito, emana uma forte luz que vai de encontro diretamente com a imagem dela que reflete uma luz tão intensa que após adentrar meus olhos , me cega por infinitos segundos... ao voltar a enxergar não vejo mais... ela se foi...